Assédio moral: gestão do medo nos bancos causa sérios danos à saúde dos trabalhadores

Pesquisa aponta o medo maior em se denunciar as práticas abusivas, reforçando ainda mais a importância da denúncia

A pressão das empresas para superar as metas e preservar a competitividade tem transformado o local de trabalho num ambiente de terror psicológico. Nos bancos, o problema tornou-se crônico, principalmente depois que transformaram os bancários em verdadeiros “vendedores de produtos”, inseridos em um sistema de controle, punições e recompensas e de extrema pressão para aumentar a produtividade. Neste ambiente, práticas abusivas são consideradas normais, gritos, humilhações e constrangimentos estão entre elas. É comum os trabalhadores, principalmente os que não conseguem “bater metas”, serem desmoralizados na frente da equipe.

Segundo Helyany Gomes Oliveira, Secretária de Saúde do SEEB Ipatinga, o assédio vem sendo utilizado como uma política de gestão dos bancos, o que faz com que os índices de adoecimento entre os bancários sejam altíssimos. “Temos que esclarecer que o assédio moral acontece também em localidades menores, como encontramos em nossa região, com agências com menos funcionários, onde todas as pessoas se conhecem. Porque essa prática tem se tornado uma forma equivocada de gestão em que o objetivo final da empresa leva a esse assédio”, pontua.

Pesquisa divulgada recentemente pela agência de empregos Vagas.com, mostra que 52% dos entrevistados disseram ter sofrido algum tipo de assédio, sendo, 84% desses casos praticados pelos chefes das vítimas ou por alguém que possuía um cargo maior. Ainda segundo a pesquisa, 87,5% dos entrevistados relataram não denunciarem esses atos pelo medo de sofrerem represálias e, principalmente, perder o emprego.

Helyany reforça que o meio efetivo de cessar com o assédio moral é por meio da denúncia. “Não podemos nos calar diante dessa prática adoecedora. O assédio só vai acabar se o bancário denunciar. E essa denúncia pode ser realizada pelos canais do sindicato: pode ser de forma anônima, se assim o trabalhador quiser, ou até mesmo pode vir ao sindicato e falar diretamente com o diretor que quiser; pode ser feita por meio do nosso site (https://bancariosipatinga.com.br/denuncia)”, informa.

O que é Assédio Moral

O assédio moral é a exposição de alguém a situações humilhantes, constrangedoras, repetitivas e prolongadas durante a jornada de trabalho e no exercício das funções. Essa conduta abusiva, em razão de sua repetição ou sistematização, atenta contra a personalidade, dignidade ou integridade psíquica ou física de uma pessoa, ameaçando seu emprego ou degradando o ambiente de trabalho.

Existem diferentes tipos de assédio. O primeiro deles é o assédio descendente, que é o tipo mais comum de assédio. Dá-se de forma vertical, de cima (chefia) para baixo (subordinados).

Seu principal objetivo é desestabilizar o trabalhador, de forma que este produza mais por menos, sempre com a impressão de que não está atingindo os objetivos da empresa, que, na maioria das vezes, já foram ultrapassados.

Existe também o assédio ascendente. Trata-se de tipo mais raro de assédio, que também se dá de forma vertical, mas de baixo (subordinados) para cima (chefia). É mais difícil de ocorrer, pois geralmente é praticado por um grupo contra a chefia, já que dificilmente um subordinado isoladamente conseguiria desestabilizar um superior. A principal causa são subordinados com ambição excessiva. Geralmente, existe um ou dois funcionários que influenciam os demais, objetivando alcançar o lugar do superior.

Outro tipo de assédio é o paritário. Esse ocorre de forma horizontal, quando um grupo isola e assedia um membro - parceiro. Seu principal objetivo é eliminar concorrentes, principalmente quando este indivíduo vem se destacando com frequência perante os superiores.

Assim sendo, o assédio moral na prática é o ato de expor o empregado a situações humilhantes (como xingamentos em frente dos outros empregados), exigir metas inatingíveis, negar folgas e emendas de feriado quando outros empregados são dispensados, agir com rigor excessivo ou colocar "apelidos" constrangedores no empregado são alguns exemplos.

Ressalte-se que o assédio moral é repetitivo, ou seja, é caracterizado por ações reiteradas do assediador. Portanto, devem-se diferenciar acontecimentos comuns e isolados que ocorrem nas relações de trabalho (como uma "bronca" eventual do chefe) das situações que caracterizam assédio moral. Se constantemente a pessoa sofre humilhações ou é explorada, aí sim temos assédio moral.

Vale destacar que algumas situações que podem identificar um empregado que está sendo assediado: isolado dos demais colegas; impedido de se expressar sem justificativa; fragilizado, ridicularizado e menosprezado na frente dos colegas; chamado de incapaz; torna-se emocionalmente e profissionalmente abalado, o que leva a perder a autoconfiança e o interesse pelo trabalho; propenso a doenças ou forçado a pedir demissão.

Algumas situações que podem identificar o agressor, podendo ser um chefe ou superior na escala hierárquica, colegas de trabalho, um subordinado para com o chefe ou o próprio empregador (em casos de empresas de pequeno porte). São aqueles que: se comportam com gestos e condutas abusivas e constrangedoras; procuram inferiorizar, amedrontar, menosprezar, difamar, ironizar, dar risinhos; fazem brincadeiras de mau gosto; são indiferentes à presença do outro; solicitam execução de tarefas sem sentido e que jamais serão utilizadas; controlam com exagero o tempo de idas ao banheiro; impõe horários absurdos de almoço, etc.

Importante frisar que não existe uma lei específica para repressão e punição daqueles que praticam o assédio moral. No entanto, na Justiça do Trabalho a conduta de assédio moral, se caracterizada, gera indenização. O assédio moral praticado pelo empregador ou por qualquer de seus prepostos autoriza o empregado a deixar o emprego e a pleitear a rescisão indireta do contrato.

Já na Justiça criminal, conforme o caso, a conduta do agressor poderá caracterizar crimes contra a honra, como a difamação e injúria, contra a liberdade individual, em caso, por exemplo, de constrangimento ilegal ou ameaça. A reparação decorrente de danos morais está condicionada à existência de um ato ilícito e culposo, bem como a existência de nexo de causalidade entre o ato e o resultado.

 



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